sábado, 17 de outubro de 2015

CHAPEUZINHO AMARELO ( Chico Buarque )



CHAPEUZINHO AMARELO


Era a Chapeuzinho Amarelo,
amarelada de medo,
tinha medo de tudo, aquela Chapeuzinho.

Já não ria.
Em festa, não aparecia.
Não subia escada, nem descia.
Não estava resfriada, mas tossia.
Ouvia conto de fada, e estremecia.
Não brincava mais de nada, 
nem de amarelinha.

Tinha medo de trovão.
Minhoca, pra ela, era cobra.
E nunca apanhava sol, 
porque tinha medo da sombra.
Não ia pra fora pra não se sujar.
Não tomava sopa pra não ensopar.
Não tomava banho pra não descolar.
Não falava nada pra não engasgar.
Não ficava em pé com medo de cair.
Então vivia parada, deitada, mas sem dormir,
com medo de pesadelo.

Era a Chapeuzinho Amarelo…

E de todos os medos que tinha
o medo mais que medonho 
era o medo do tal do LOBO.
Um LOBO que nunca se via,
que morava lá pra longe,
do outro lado da montanha,
num buraco da Alemanha,
cheio de teia de aranha,
numa terra tão estranha,
que vai ver que o tal do LOBO
nem existia.

Mesmo assim a Chapeuzinho
tinha cada vez mais medo do medo do medo
do medo de um dia encontrar um LOBO
Um LOBO que não existia.

E Chapeuzinho amarelo,
de tanto pensar no LOBO,
de tanto sonhar com o LOBO,
de tanto esperar o LOBO,
um dia topou com ele
que era assim:
carão de LOBO,
olhão de LOBO,
jeitão de LOBO,
e principalmente um bocão
tão grande que era capaz de comer duas avós,
um caçador, rei, princesa, sete panelas de arroz…
e um chapéu de sobremesa.

Mas o engraçado é que,
assim que encontrou o LOBO,
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo:
o medo do medo do medo do medo 
que tinha do LOBO.
foi ficando só com um pouco de medo daquele lobo.
Depois acabou o medo e ela ficou só com o lobo.

O lobo ficou chateado de ver aquela menina
olhando pra cara dele,
só que sem o medo dele.
Ficou mesmo envergonhado, triste, murcho e branco-azedo,
porque um lobo, tirado o medo, 
é um arremedo de lobo.
É feito um lobo sem pelo.
Um lobo pelado.

O lobo ficou chateado.
Ele gritou: sou um LOBO!
Mas a Chapeuzinho, nada.
E ele gritou: EU SOU UM LOBO!!!
E a Chapeuzinho deu risada.
E ele berrou: EU SOU UM LOBO!!!!!!!!!!
Chapeuzinho, já meio enjoada,
com vontade de brincar de outra coisa.
Ele então gritou bem forte 
aquele seu nome de LOBO
umas vinte e cinco vezes,
que era pro medo ir voltando e a menininha saber 
com quem não estava falando:

LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO 
BO LO BO LO BO LO BO LO

Aí, Chapeuzinho encheu e disse:
“Pára assim! Agora! Já! Do jeito que você tá!”
E o lobo parado assim, do jeito que o lobo estava,
já não era mais um LO-BO.
Era um BO-LO.

Um bolo de lobo fofo, tremendo que nem pudim,
com medo de Chapeuzim.
Com medo de ser comido, com vela e tudo, inteirim.

Chapeuzinho não comeu aquele bolo de lobo,
porque sempre preferiu de chocolate.
Aliás, ela agora come de tudo, 
menos sola de sapato.
Não tem mais medo de chuva, 
nem foge de carrapato.

Cai, levanta, se machuca, vai à praia, 
entra no mato,
Trepa em árvore, rouba fruta, 
depois joga amarelinha,
com o primo da vizinha, 
com a filha do jornaleiro,
com a sobrinha da madrinha
e o neto do sapateiro.

Mesmo quando está sozinha, 
inventa uma brincadeira.
E transforma em companheiro 
cada medo que ela tinha:

O raio virou orrái;
barata é tabará;
a bruxa virou xabru;
e o diabo é bodiá.

FIM

( Ah, outros companheiros da Chapeuzinho Amarelo:
o Gãodra, a Jacoru,
o Barãotu, o Pão Bichôpa…
e todos os trosmons).


Chico Buarque



Francisco Buarque de Hollanda, mais conhecido por Chico Buarque (Rio de Janeiro, 19 de junho de 1944), é um músico, dramaturgo e escritor brasileiro. É conhecido por ser um dos maiores nomes da música popular brasileira (MPB). Sua discografia conta com aproximadamente oitenta discos, entre eles discos-solo, em parceria com outros músicos e compactos.


Chico Buarque recebendo o prêmio de melhor livro na 5º edição do prêmio BRAVO! Prime de Cultura em 2009

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Chico_Buarque_no_BRAVO.jpg#/media/File:Chico_Buarque_no_BRAVO.jpg

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A CIDADE QUE EU VISITEI (Jovany Sales Rey)

Olá amigos, 

Hoje vou postar o poema escrito pelo meu amigo Jovany. Esse  trabalho foi publicado no Caderno Literário do Diário Oficial no ano de 1965, quando o Jovany tinha apenas 10 anos de idade. Legal, né?

O poema fala sobre uma cidade de fantasia, muito especial. Com certeza, vocês irão gostar! 



Jovany e eu, no dia do lançamento do seu livro mais novo.
"O DONATÁRIO"


A CIDADE QUE EU VISITEI


Os olhos cerro bem fundos
no meu quentinho leito
e sonho com outros mundos
onde passeio satisfeito.

Inda ontem era uma aranha

e entrei em uma cidade,
mas que cidade estranha
pena não ser de verdade!

Com casas de feijão

escorria feito enxurrada
nas ruas de requeijão
um monte de feijoada.

Um chafariz de pamonha

vertia carreiras de mel,
muito vinho Borgonha
champanhe e moscatel.

Um empadão descoberto

do jardim era canteiro
e por flores tinha, esperto,
recheios de frango inteiro.

Só haviam na escolinha

cartilhas de beiju
carteiras de farinha
mesas de milho cru.

Os seus muitos habitantes

cada homem e sua dona
eram todos de barbantes
com cabeça de azeitona.

O prefeito, esse era

sorvetão desse tamanho
e assim (também pudera)
derretia ao tomar banho!

O soldado de polícia

ao preso vivia grudado.
Sua algema, que delícia,
era toda de melado.

O doutor só receitava

bala chita e de hortelã.
A doença desbotava
deixando a pessoa sã.

Em vez de injeção

o dentista, tão bonzinho,
para tirar infecção
dava suco em canudinho.

De chocolate, o trenzinho

apitava na estação,
pedindo leite quentinho
para dobrar o fumação.

E olha só que confusão:

seu padre um tomatão,
um tomatinho o sacristão
de ketchup a procissão.

E todo o povo era ricaço,

pois para ninguém ser avarento
havendo tanto ar no espaço
o dinheiro era... de vento!


Jovany Sales Rey


sábado, 7 de março de 2015

O QUE É UM POETRIX?


Olá amigos,

Há quanto tempo, não é? Vamos falar de poesia?


Hoje resolvi homenagear uma amiga que está aniversariando. Escrevi um poeminha no estilo poetrix para ela. O POETRIX é um tipo de poema que deve passar uma mensagem de forma bem direta e resumida. Ele deve ter apenas três versos e também um título. O poema deve ser escrito da forma mais resumida possível e deve ter, no máximo 30 sílabas. Esse poetrix que escrevi também é um ACRÓSTICO pois os versos iniciam com a palavra LIA. É, portanto, uma mistura de acróstico com poetrix, chamado de "ACROSTRIX".



SIMPLES ASSIM

Levitou de alegria,
Inventando o dia.
A menina que lia.

Andra Valladares



Mais alguns POETRIX para vocês entenderem melhor como é...


LAVADEIRA

Na beira do rio,
esfrega, bate, torce, canta...
Lava a alma!

Andra Valladares


BAILARINA

Dançando na ponta dos pés,
não importa a idade,
é sempre menina.

Andra Valladares



FLOR

Vestiu-se de rosa,
com encanto e perfume.
Desabrochou mulher.


Andra Valladares




Pronto! Agora que você já sabe o que é um POETRIX. Que tal escrever um?


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Sobre o livro "O Meu Pé de Laranja Lima"

Olá amigos, 

Ontem e hoje participei de uma Oficina de Criação Literária no SESC/Glória com a escritora Ninfa Parreiras. Ela passou um exercício que consistia em produzir um texto pequeno sobre a primeira experiência de leitura que mais nos tocou. Escolhi escrever um pequeno poema sobre o livro "O Meu Pé de Laranja Lima" de José Mauro de Vasconcelos, pois ele foi um livro muito marcante na minha infância e adolescência. Nem sei quantas vezes reli esse livro. É uma bela história, leve, emocionante e poética que recomendo para qualquer pessoa que tenha sensibilidade, de crianças a idosos. Não consigo imaginar minha infância sem a influência da alegria, aventuras e desventuras do Zezé.




No meu baú de memórias,
o que ainda me fascina.
É a solitária criança
compartilhando histórias
com um pé de laranja lima...

(Andra Valladares)



segunda-feira, 1 de setembro de 2014

ANÚNCIOS CARENTES ( POEMAS DE ALMIR CORREA)


Olá amigos!


Hoje descobri um livro de poemas muito legal. De forma criativa e com muito senso de humor, o autor Almir Correia mostra como é triste a vida dos animais abandonados e como eles sofrem com isso. 

Esse livro deveria ser lido por todos, crianças, jovens, adultos e idosos. Infelizmente muita gente enxerga os animais como "seres inferiores" que servem apenas para serem explorados e depois de perderem a "utilidade" não merecem mais viver. E assim esses animais são simplesmente "jogados fora".

Assim, vemos diariamente pelas ruas animais abandonados, hostilizados, massacrados... 

Vamos pensar assim: "Nesse mundo que Deus criou não existe ser inferior ou superior. Todos nascemos do útero da mesma mãe: Gaya, a Terra..."






SOU DUQUE

Viro lata
viro balde
viro até pneu
mas se você quiser
não viro nada
só pra você 
ser dono meu.



SINCERIDADE


Tô na rua
no frio
na chuva
tô no vento

Tô na sorte
na lua
na esquina
no lamento

Tô sozinha
com fome
com sede
sem coberta
sem parede

Sou só eu
mas em breve
serei seis
ou mais
todos vira-latas feito eu
cheios de carinhos
lambidas
olhos vivos
orelhas em pé
e rabinhos abanando "eu te amo".



PANGARÉ

Pan
pan
pan
Pangaré
meu ex-dono
nunca me fez cafuné
pan
pan
pan
Pangaré
me trocou por moto
me deu chute na ré

Hoje caminho pelas estradas
vou pelas beiradas
rumino a solidão

Se alguém me quiser
estou aí
cheio de feridas
mastigando 
as injustiças da vida.


BICHINHO ADOTADO

Quem quiser adotar
um bichinho abandonado
aqui vai um recado
bichinho adotado é pra sempre
é amigo
é irmão
é parente
bichinho adotado
é nossa alma em outro ser
bichinho adotado
é outra alma
em nosso viver.





(*) Os poemas acima foram extraídos do livro ANÚNCIOS CARENTES DE BICHOS ABANDONADOS POR GENTE (ALMIR CORREA)




Sobre o autor:



ALMIR CORREA é escritor de mais de duas dezenas de livros, sempre trabalhando com o humor e fazendo do livro uma gostosa brincadeira. 



Suas principais publicações são: "POEMAS MALANDRINHOS" ; "POEMAS SAPECAS" ; "RIMAS TRAQUINAS" ; "ANÚNCIOS AMOROSOS DOS BICHOS" ; "TRAVA-LÍNGUA QUEBRA-QUEIXO REMA-REMA REMELEXO"  e  "O MENINO COM MONSTRO NOS DEDOS".  


Almir é também roteirista, criador e diretor da série de animação "Carrapatos e Catapultas" (Projeto Anima TV - Rede Cultura de Comunicação). 


No blog http://carrapatosecatapultas.blogspot.com há muitos desenhos e diversão. Para entrar em contato com o autos, você pode escrever para o e-mail almircor@yahoo.com.br .

sexta-feira, 11 de julho de 2014

A MENINA IRREQUIETA (Andra Valladares)









Menina inquieta, levada da breca.
Não faz seu estilo brincar de boneca.
Parece um moleque, correndo na rua.
Jogando queimada, bem descabelada...

Sabe soltar pipa e rodar peão.
Até joga bola se falta opção.
Mas não aprecia jogo de botão,
pois a "fera" gosta é de muita ação...



Joga amarelinha, brinca de esconder,
de pique bandeira, “O mestre mandou”...
Pula no elástico, roda bambolê,
pendura nas árvores, corre de patins,
e pra completar, dança até cansar...



Ah! Quanta energia tem essa menina...
Que agitação!!!”
Diz a mãe, preocupada, vigiando no portão.


Na escola é difícil prestar atenção.
A cabeça não para na sala de aula.
Vagueia no espaço...
Enquanto a “fessora” ensina a lição,
a menina inquieta, com os olhos vidrados,
sentada, quietinha... Viaja a Plutão!


Adora animais. E sempre que encontra
na rua, um gatinho ou cão vira-lata,
os leva pra casa e esconde os bichinhos 
para a mãe não ver.
Quando ela os encontra e lhe passa um sermão... 
A menina explica, com cara de "santa":
“Eles me seguiram, o que posso fazer?”



Mas essa menina, além de agitada,
e estabanada. É um tanto sensível...
Ela se encanta com o por-do-sol.
E sente a brisa da noite com os olhos fechados.
Deitada na calçada, aprecia as estrelas.  
Com a lua conversa e seus ricos sonhos, 
a ela confessa...

Se é dia de chuva, corre pra janela
Pra inspirar bem fundo o ar perfumado,
com cheiro gostoso da terra molhada...


Além de brincar, jogar, correr, pular
dançar, escalar, resgatar, esconder...
Ufa...

Prestem atenção! A garota também tem
seus momentos de concentração.
Na arte se encontra. Viaja nos livros, 
escreve, canta e inventa canções...
  

Menina irrequieta, levada da breca...
Cresceu... Cresceu... Tornou-se poeta!


(Andra Valladares)